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Balões enfeitam o céu de junho em São Paulo

  Uma arte feita as escondidas na periferia da cidade, provocando encanto e medo.

 

 

        Conhecido no Brasil por fazer parte da tradição junina, o balão é considerado uma arte por centenas de pessoas. Essas dedicam parte de seu tempo arquitetando e construindo verdadeiras obras de arte que chegam a ter mais de 20 metros de altura e enfeitam o céu de São Paulo.

A construção de balões requer um habilidoso trabalho de engenharia, para qual foram desenvolvidas técnicas especiais. O engenheiro Carlos*, que há 20 anos solta balões no céu de São Paulo, explica que nem todos são habilitados para praticar essa arte:O processo de confecção dos balões é muito mais complicado do que as pessoas imaginam, existem balões que demoram anos para serem confeccionados, tem que ter uma certa experiência não é qualquer um que faz balão. Tem que saber fazer.” O material utilizado para construir o corpo do balão é muito simples. Consiste em rami, um tipo de barbante, cola, durex e papel hulk. O papel é cortado em gomo e colado. Na parte interna da armação é colocado o barbante, em fios verticais e horizontais. Esses servem para dar sustentação ao balão e  evitar que ele possa explodir. (leia abaixo)

A tocha é chamada de bucha e é feita de estopa e parafina. É ela a responsável por aquecer e dilatar o ar dentro do balão. Esse consegue subir por que a pressão na superfície interior do invólucro fica maior do que a exterior.

            O Balão dificilmente é construído por uma pessoa só. Geralmente, os baloeiros formam equipes para realizar os projetos e participar de festivais. Estes são organizados por uma equipe, que se encarrega de convidar as demais para a competição. São eleitos os três melhores balões noturnos, soltos de madrugada e os três melhores diurnos, soltos ao amanhecer.

            Os locais escolhidos para soltar os balões são os campos de futebol escondidos na periferia ou então em chácaras particulares no interior do estado. “Tem que ser um local onde não haja casa ou cidades por perto, por isso hoje a maioria dos festivais são no interior ou num lugar bem isolado.” Explica Carlos*.

             A fiscalização da polícia também justifica a preferência dos baloeiros por locais afastados da cidade. Eduardo*, que participa da “Turma da Colina”, faz balões desde 1989. Durante todos esses anos, esteve em diversos campeonatos, na cidade de São Paulo, no Rio de Janeiro e em Campinas. “Hoje, os festivais são mais difíceis por causa da fiscalização, mas antigamente  participávamos de 3 ou até 4 festivais no ano.”

           Em 99, a Turma da Colina ganhou o terceiro lugar de um festival carioca com uma balão que carregava um letreiro de 80 metros.

           Um momento importante do festival é o resgate do balão. 

                Os participantes seguem seus engenhos até o   


“Somos tantos

 quanto as

 estrelas

 do céu”


momento em que ele está caindo. É necessário muito cuidado pois algumas vezes a bucha ainda está acesa, podendo causar incêndios. Eduardo* explica que dependendo do tamanho do balão é preciso um grande número de pessoas para fazer o resgate. “primeiro a gente tira a armação e deixa a bucha queimando no chão e depois, dobra o balão”, diz ele.

            Muitos baloeiros sabem da responsabilidade que se deve ter ao soltar um balão. “A nossa maior preocupação é com a segurança de nossos balões, pois ninguém imagina como nos preocupamos com isso, pois se algo der errado pode por a vida de alguém em perigo, ou perder o trabalho que durou meses ou anos para ser feito.” Porém, nem todos tem essa consciência, soltando balões pequenos e precários e não efetuando o resgate do objeto.

            Dalva*, 57, mora em frente a um campo de futebol na zona oeste de São Paulo. Todos anos, ela assiste temerosa à soltura dos balões. “Acho bonito, mas muito perigoso. As vezes os fogos estouram quando o balão ainda está baixo”, afirma a ela.

            A imprudência de alguns acaba colocando a sociedade contra os baloeiros, mas eles reclamam: “Somos taxados como marginais, somos ditos como um mal para a sociedade, mas isso é a imprensa que nos titulou. Somos apenas um tipo de artista diferente dos outros que demonstra sua arte no céu. Qual pessoa, que ao ver um balão no céu, não fica admirada com a beleza dele?” diz Carlos*.

            Além de respeito, os baloeiros também querem permissão legal para praticar sua arte. No Rio de Janeiro, a Sociedade Amigos do Balões, a SAB, representada pelo deputado Paulo Ramos – PDT – está com um projeto de lei em andamento na Câmara legislativa do Estado. Esse projeto permite a soltura dos balões, desde que as equipes sejam cadastradas e autorizadas pela SAB. Também especifica que deve ser enviadas cópias da autorização para o Corpo de Bombeiros e a delegacia de polícia mais próxima do local do evento.

            No projeto de lei, o deputado Paulo Ramos, justifica a sua decisão: “Os balões, peças tradicionais das festas juninas, herança cultural dos irmãos portugueses, são um fato social arraigado à infância, à juventude, à família, às comemorações e ao folclore brasileiro, no caso das festas juninas, sempre em louvor a algum santo, foram constantemente, uma conjugação de engenho, arte, diversão e solidariedade.”

            Embora os balões sejam lembrados por fazer parte da tradição junina e do folclore brasileiro, o balão surgiu na França. Os irmãos Etiene e Joseph Montgofier, fabricantes de papel, procuravam novas aplicações para o seu produto e começaram a projetar  e estudar o balão em 1780. Três anos depois, fizeram o primeiro teste, o engenho voou carregando um pato, uma carneiro e um gato.


"A imprudência de alguns coloca a sociedade contra os baloeiros"


Entretanto, há quem diga foi um brasileiro que conseguiu fazer o primeiro vôo de engenharia humana. Frei Bartolomeu Gusmão, nascido na Vila de Santos, descobriu que as bolhas de sabão voavam mais alto por causa do calor da vela.E, 

 1709 pediu permissão ao Rei D. Jõao V para mostrar a “máquina de voar”. Na primeira demonstração o balão incendiou - se antes mesmo de voar. Já na segunda demonstração, o balão subiu uns vinte palmos, mas foi destruído pelos criados do palácio que temeram um incêndio.

Três dias depois, Frei Gusmão fez a terceira experiência no pátio da Casa da Índia, perante D. João V e a rainha Dona Maria Anad e Habsburgo. Dessa vez, o balão voou plenamente e só caiu quando sua chama já estava apagada.

O Rei D. João ficou encantado com a maravilha e concedeu ao Frei o direito sobre qualquer nave voadora, condenando a morte quem tentasse copiar o engenho.

Não sabia Gusmão que a sua criação iria alcançar distâncias bem maiores.

 

 

* O nomes foram trocados a pedido dos entrevistados

 

Dicionário do balão

 

• Bucha - mais conhecida como tocha, material utilizado para fazer o balão subir e se manter no ar. Veja abaixo maiores informações .
Aranha - estrutura metálica utilizada para sustentar a bucha. Veja abaixo maiores informações .
Aro - Estrutura metálica em forma de círculo que é encaixada na boca do balão para que a aranha seja fixada.
Lanterninhas - Copos feitos de seda com vela dentro para emitir a sensação de luz colorida no céu noturno. Veja abaixo maiores informações .
• Bojo - Combinação de lanterninhas. Temos os seguintes tipos : Bojo escada, bojo envelope, bojo rede.
Respiro - Furos no balão que permitem que a pressão interna seja aliviada e não abafe a bucha, geralmente são colocados da parte inferior próximos a boca até o meio do balão. São feitos com os furadores geralmente de metal que deixam o ar quente sair fazendo com isto que o ar seja constantemente renovado e também cooperando para que a bucha queime totalmente .
Decoração - Balões desenhados ou recapados com papel de seda de forma a enfeitar e torná-los mais maravilhosos.
Cintamento - Reforço de papel nos sentidos Horizontal e Vertical do balão de forma que o torne mais resistente para que agüente mais pressão e conseqüentemente para poder levar peso. Veja abaixo maiores informações .
Guias - Cordas que servem para guiar os balões até uma certa altura, tornando mais segura a sua soltura, são de vários tipos e grossuras diferentes, de acordo com o tamanho do balão.

Fonte: Cartilha do Balão. www.cartilhadobalão.hpg.com.br

 

 

 

Ana Lucia Pires