Culinária Inglaterra

Quebrando o estereótipo da Culinária Britânica

A idéia de que a comida do reino Unido é ruim não é unânime . A qualidade gastronômica de um país pode ser boa para uns enquanto que para outros é ruim

 

         Quando o assunto é culinária internacional a França aparece logo, o México é lembrado pelos temperos picantes, a Alemanha por seus salsichões... No fim da fila vem o Reino Unido, criticado por servir uma comida, considerada por muitos, sem sabor. O estereótipo que cerca a culinária britânica é forte, porém a crítica não é unânime. Existem motivos que justificam suas características e detalhes que devem ser levados em conta na hora de avaliar qualidade.

            O Chef Andy Beeby, do The Bridge (restaurante do Centro Brasileiro Britânico), explica que uma das características da culinária Britânica é a de valorizar o sabor próprio dos alimentos, buscando apreciar sua pureza e frescor. Dessa forma, o espaço para temperos acaba sendo restringido, não por falta de gosto, mas sim por opção. O inglês Dave Colley, Chef de cozinha da escola vocacional de culinária Metro Tech, no Arizona (E.U.A), diz que a comida é feita sem muito tempero, mas sempre com alimentos frescos. “Na verdade, a comida britânica nunca foi muito criativa e tradicionalmente é feita sem sal, acompanhada de algumas frituras, tipo peixe e batatas, e usa muita carne ensopada com verduras.” – esclarece Colley.

            A razão para a valorização da pureza dos alimentos pode ser encontrada nos hábitos culturais, passados de geração para geração, desde os primeiros habitantes do Reino Unido. A prática da caça fez com que o consumo de carne fosse alto, assim como o cultivo de verduras e legumes nas plantações foi responsável pela introdução de vegetais na dieta britânica. O clima da região, o qual é temperado e obriga os habitantes a viverem sob baixas temperaturas, explica porque é preferido o ensopado quentinho e a carne cozida aos vegetais crus e frios.

            Apesar de ser um povo que cultiva hábitos herdados de seus ancestrais, a influência de outras nações acaba refletindo em seus pratos. Os países que mais contribuíram para a variedade gastronômica do Reino Unido foram suas ex-colônias, como a Índia e o Vietnã, e os países vizinhos, como a França e a Itália. Wilma Kövesi, professora de cozinha, sócia da escola Wilma Kövesi de Cozinha e integrante da equipe do evento de gastronomia BoaMesa, cita o molho Curry, entre outras especiarias, como uma das contribuições das ex-colônias britâncias na culinária atual presente no Reino Unido.

            “A culinária britânica é rica, substanciosa, colorida e farta, tanto nos pratos salgados como nos doces.” – conta Ana Butterfly, formada em Gastronomia pela Universidade Estácio de Sá, que dedica-se atualmente à cozinha internacional. Ana Butterfly é uma das Chefs que defende a qualidade da comida do Reino Unido. Ela afirma que não é apenas de legumes, verduras e carnes de caça, que são feitos os pratos na Grã-Bretanha. Flores comestíveis, ervas, cogumelos e frutas, assim como uma grande variedade de queijos e frutos do mar estão presentes incrementando a culinária local. “Eles utilizam muito o creme de leite fresco, manteigas, leite, vinhos, champagne, sementes, nozes, castanhas, pimenta, vinagre e azeite em seus caldos básicos de carne. E seus molhos são bem incorpados.” – completa a Chef brasileira.

            O ponto de vista de Ana Butterfly não é o mesmo defendido por Ana Margarida Lázaro, editora  da seção de Culinária do Portal Netfeminina.Sapo, que realiza freqüentes viagens à Grã- Bretanha. Ana Lázaro critica a falta de tempero e criatividade, alegando, que a variedade de restaurantes (internacionais) no Reino Unido esconde a pobreza da culinária britânica. “Há países onde a dita cozinha do mundo está em todas as esquinas. Tal é o caso da Inglaterra, principal país da Grã-Bretanha. Essa característica pode ser explicada de duas formas. A primeira pelo fato de ser membro da Common Wealth e ter populações de vários cantos do mundo, recebendo influência internacional; e a segunda seria talvez pelo fato de a comida ser ruim e sem sal, tendo por isso que buscar sabores de outras latitudes.” – opina Ana Lázaro.

            A variedade gastronômica internacional que os países do Reino Unido oferecem é mesmo grande e garante que qualquer pessoa, independente de sua nacionalidade, gosto e costume, possa desfrutar de uma boa refeição. Nelson Pretto, brasileiro, professor de comunicação, que atualmente mora em Londres, procurou não se prender à idéia fixa de que a culinária local era de baixa qualidade. Buscando experimentar algo típico da Inglaterra provou o famoso prato Fish and Chips (um filé de peixe - geralmente bacalhau, hadoque ou linguado - mergulhado em uma massa feita de farinha, ovos e água e frito em óleo quente; acompanhado de batatas cortadas em palitos grossos e fritas também em óleo). “Confesso que o tal Fish and Chips não fez minha cabeça. Na verdade, ele é encontrado aqui mais ou menos como acarajé na Bahia... E não tem quem me diga que acarajé, qualquer um, é bom… Um bom acarajé tem seu lugar. E os ruins também: o lixo! Penso que é mais ou menos como o tal Fish and Chips.” – relata Pretto.

            A experiência de Pretto e sua comparação com o Acarajé brasileiro traz a tona um outro olhar sobre a conceito de qualidade gastronômica. Assim como muitas pessoas acusam a culinária britânica de ser ruim, muitos dos estrangeiros que vem ao Brasil não suportam pratos como Acarajé e Feijoada. A questão deixa de ser uma classificação entre bom e ruim para tornar-se uma questão mais de costume do que de qualidade. O que para alguém pode parecer bom e gostoso, para outro indivíduo pode ser ruim e sem graça. O valor está na cultura que os pratos carregam e nas razões que justificam suas características.

 

Fernanda Cancio